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segunda-feira, 12 de março de 2007

Confissões de um Flamenguista

Esse texto foi escrito durante um período pior da nossa história. Hoje a situação é bem melhor, mas o texto é muito válido pela emoção que transmite. Um pouco da emoção de ser Flamengo.

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CONFISSÕES DE UM FLAMENGUISTA ENVERGONHADO

O escritor Nelson Rodrigues dizia maldosamente que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Eu poderia acrescentar que uma outra forma de solidão é ser paulista e torcer por um time carioca. O fato de ser torcedor do Flamengo e ser um paulista genuíno (ao longo dos meus 35 anos, não fui mais do que meia dúzia de vezes ao Rio de Janeiro!) já me gerou diversos constrangimentos. Nas conversas de bar, quando o assunto chega no futebol e as pessoas perguntam qual é meu time do coração, tenho sempre que fazer um pequeno esboço biográfico para justificar minha paixão pelo rubro-negro: digo que comecei a gostar de futebol na mesma época em que Zico surgia como grande revelação da era pós-Pelé, que eu raramente ia a estádios e que via futebol pela TV (de modo que pouco importava se meu time jogava em São Paulo, Rio, Porto Alegre ou Macapá), que a escolha de um time não pode se guiar por preconceitos chauvinistas etc. etc. De nada adianta. Torcer pelo Flamengo em São Paulo é mais ou menos como ser brasileiro e torcer pela Argentina. Uma aberração genética, um desvio de caráter, uma heresia agravada pela rivalidade entre Rio e São Paulo.

Durante a adolescência, a história me perdoou: o Flamengo de Zico e Júnior foi o grande time dos anos 80, tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores, campeão mundial. De uns tempo para cá, porém, o Flamengo só dá vexame e tive que adotar uma explicação mais poética, aproveitando o fato de ser um jornalista que trabalha há muitos anos com literatura. Aqui vai minha apologia metafísica do flamenguismo: além de ser uma instituição supranacional (o time tem a maior torcida do Brasil e, portanto, do mundo), o Flamengo é também uma entidade supratemporal e trans-histórica. A prova disso é que um dos maiores escritores de todos os tempos, o francês Stendhal, foi um flamenguista avant la lettre. Ou alguém duvida que o romance O Vermelho e o Negro, de 1830, é uma elegia premonitória às glórias rubro-negras? Mais do que isso, pode-se afirmar que Zico foi o Julien Sorel do futebol. No rastro deixado por Sorel (o jovem herói de O Vermelho e o Negro, que sai da província para conquistar a sociedade parisiense munido apenas da força do talento e do gênio individual), Zico foi o plebeu subnutrido que saiu de Quintino para galgar os pedestais do futebol mundial.

Tudo bem, tudo bem, Zico não é muito diferente dos outros craques de origem humilde que conquistaram fama e fortuna. Mas havia nele um elemento trágico de raiz genuinamente literária - e rubro-negra. Quando Zico perdeu o pênalti contra a França, na Copa de 86, estava cumprindo o destino de todo herói romanesco: no auge da glória, pôs tudo a perder, ofereceu-se em sacrifício para ensinamento dos homens, punindo a soberba do "país do futebol". Ao bater aquele fatídico pênalti, Zico estava inconscientemente emulando Julien Sorel, que cometeu um crime gratuito que o levaria dos salões aristocráticos para o cadafalso.

Estas aproximações literárias têm bons predecessores. O próprio Nelson Rodrigues, numa crônica lapidar, justificou a rivalidade do Fla-Flu pelo fato de que a primeira equipe de futebol do Clube de Regatas Flamengo foi uma dissidência do Fluminense, gerando um ódio fratricida e fazendo com que Flamengo e Fluminense fossem - na frase genial de Nelson - "os irmãos Karamázovi do futebol". No âmbito propriamente ficcional, o escritor António de Alcântara Machado deixou-nos contos epifânicos, como "Corinthians (2) v. Palestra (1)" e "Gaetaninho". João Antônio e Renato Pompeu também foram mestres na arte de captar a alma dos estádios, as utopias sociais brasileiras, encarnadas nas aspirações dos jogadores de várzea que sonham "sair de sua vida cinzenta para o mundo ensolarado dos craques" - conforme expressão do jornalista Marcos Faerman num belo ensaio que tive o prazer de publicar na revista literária da qual sou editor (CULT n. 11, junho/98, número dedicado ao futebol). Aliás, quem quiser ter uma boa idéia da prolífica prosa futebolística na literatura brasileira deve ler Onze em campo e um banco de primeira (Editora Relume-Dumará, organização de Flávio Moreira da Costa), com contos dos autores citados e de João Ubaldo Ribeiro, Orígenes Lessa, Sérgio Sant'Anna, Ricardo Ramos (filho de Graciliano) e Edilberto Coutinho, entre outros.

Os paralelos entre futebol e literatura, contudo, não se esgotam nesse plano temático em que os escritores criam histórias envolvendo jogadores, torcedores e cartolas. Há algo de mais abstrato e ao mesmo tempo profundo entre essas duas paixões, nesse encontro entre a letra e a bola. Tanto nos gramados quanto nos livros temos um universo encerrado em si mesmo, um mundo que se comunica com nosso cotidiano de maneira indireta: no estádio e num bom romance estão em jogo todas as paixões humanas (desejo, medo, inveja, ambição, ética, leis etc.), porém elas adquirem aqui forma e finalidade. Dentro de sua limitação de espaço e tempo, uma partida de futebol e um relato literário encerram o percurso de uma vida. No apito final e no último capítulo temos uma revelação, que pode ser tão monstruosa como uma derrota para o Vasco ou o suicídio de Ana Karênina, e tão jubilosa quanto golear o Vasco ou o idílio pastoral das comédias de Shakespeare.

Em outras palavras, a literatura corrige a realidade naquilo que esta tem de precário. Em literatura, até mesmo a injustiça e o triunfo do Mal tornam-se compreensíveis, o caos e a destruição são assimilados a uma ordem superior: a ordem das palavras. Foi nisso que o escritor Albert Camus estava pensando ao afirmar que os grandes artistas criam "universos de substituição", relatos e imagens que condensam a condição humana, conferindo permanência ao que é mortal, justapondo aos fragmentos de nossa vivência uma harmonia de prazeres e dores, tragédias e apoteoses. Estas mesmas tragédias e apoteoses fazem a vida de quem ama o futebol. A vibração com a conquista de um título não tem função meramente catártica, assim como o choro por causa do rebaixamento de nosso time para a segunda divisão guarda um resíduo de racionalidade por trás da emoção. Podemos não saber objetivamente qual é a causa da vitória ou da derrota, mas sabemos que essa causa existe, seja ela o espírito de equipe, o talento individual do craque, o erro do juiz, as falcatruas dos cartolas ou mesmo os caprichos de uma bola na trave. É essa causalidade perfeita que falta à vida - e por isso o futebol e a arte são tão superiores à vida.

Ao citar Camus, não consigo evitar o tom pessoal e lembrar que li pela primeira vez O Estrangeiro na mesma época em que organizava infindáveis campeonatos de futebol de botão, com tabelas cuja complexidade faria corar os cartolas da CBF. Qual a relação entre os dois fatos? É simples: sem nenhum talento para a ficção, agarrei-me às obras de Camus como se eu mesmo tivesse escrito aqueles relatos (O Estrangeiro, A Peste, A Queda) que expressavam de forma tão brilhante o divórcio do homem e seu cenário, o sentimento do absurdo diante da solidão, da mortalidade e da opacidade do mundo; e, como autêntico perna de pau no futebol, criei nos campeonatos de botão o meu próprio "universo de substituição", corrigindo minha inabilidade natural com a bola através de partidas emocionantes em que era sempre eu quem jogava pelos dois times (temia que algum amigo viesse quebrar a harmonia mágica dos jogos com regras e resultados diferentes daqueles que eu manipulava).

Depois de alguns anos lendo ininterruptamente as obras de Camus, descobri com assombro que ele fora goleiro do RUA (Racing Universitaire d'Alger, time amador de sua Argélia natal) e amava o futebol a ponto de escrever a seguinte frase: "Depois de muitos anos em que o mundo me ofereceu tantos espetáculos, o que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol."

Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre essa ética do futebol: nos meus campeonatos de botão, o Flamengo sempre se sagrava campeão...

:: Manuel da Costa Pinto
Jornalista, editor da revista CULT

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