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sexta-feira, 1 de junho de 2007

MOMENTO SUBLIME

MOMENTO SUBLIME

06 ou 07 de setembro de 1953. O menino de seis anos (completaria sete no mês seguinte), fora vestido com o uniforme do Botafogo, recém comprado por seu pai, torcedor do alvinegro. Prepara para ir, pela primeira vez, ao Maracanã. Jogo: FLAMENGO X Botafogo.

Consta que era muito grande a excitação do menino, que já vinha assistindo, em preto e branco, a jogos televisados pela TV TUPI, narrados por Ary Barroso, com sua gaitinha, e comentado por José Maria Scassa (ou seria Escassa?). A gaitinha e a irreverência do Ary haviam mexido com o jovem, que também já percebera o quanto o narrador famoso gostava de um time em especial, que usava camisa em listras horizontais.

Não consta que o menino se encontrasse confortável com aquele uniforme, de combinação de cores tão comum, bastante sem sal.

O pai, orgulhoso, o pega pelas mãos. Após beijar sua mãe, despede-se, imaginando o que, para ele, seria uma grande aventura.

Seguem, pai e filho, de mãos dadas. Tomam um ônibus e dirigem-se para o palco maior.

O coletivo aproxima-se do estádio. São poucas as pessoas com as camisas dos dois clubes, tanto dentro, quanto fora do ônibus. Alguns portam bandeirolas. Há mais vermelho e preta. Alguns estão em traje esporte e vários vestindo terno e gravata. Outros usavam até chapéu. Era tudo novo. Uma aventura mesmo. Um mundo desconhecido.

Enfim, entram no estádio e o menino extasia-se com a sua imensidão e com o barulho das torcidas. O jovem já pressentia que algo definitivo aconteceria naquele dia. Que jamais voltaria a ser o mesmo.

Desenrola-se o match, e o menino divide sua atenção entre o jogo e a apresentação das torcidas. Era algo fascinante.

Aos poucos, aquele pequeno ser humano passa a ter um desequilíbrio em sua atenção, pois passa a fitar mais a torcida do outro time, aquele que envergava uma camisa diferente da que ele estava usando, do que o jogo ou a torcida na qual se encontrava. Passou a perceber, mais fortemente, que havia algo por acontecer e a se sentir um estranho no meio de pessoas que torciam pelo time de camisa sem graça.

O pai procurava passar-lhe a dinâmica do jogo, especialmente em razão de seu (do pai, apenas do pai, já o sabia o jovem) time estar vencendo a partida.

O menino não conseguia apreender o que o pai dizia, pois sua atenção já havia passado a ser direcionada, primordialmente, para a torcida do outro time, que usava uma camisa linda, nas cores preta e vermelha. Mais tarde, veio a saber e compreender que não se tratava apenas de uma camisa, mas de um MANTO SAGRADO!

Final do jogo e o time de seu pai venceu por três a zero. O jovem não mostrou qualquer interesse pelo placar.

A certeza do pai é que teria conquistado mais um torcedor para suas hostes e estava radiante por isso. Afinal, com uma vitória daquelas ...!

Mas o rapazinho já percebera que algo não ia bem, pois apesar de seu pai se encontrar muito feliz, esta felicidade estava confinada à parcela menor de pessoas que se encontravam no estádio. Do outro lado estava uma multidão entristecida e ensurdecedoramente silenciosa. A multidão era vermelha e preta e isto mexia com o menino, que já fitava a camisa que usava, presente de seu pai, com desdém.

Voltam para casa, com o genitor alardeando as excelências dos atletas da camisa sem graça. Durante toda a viagem de volta, o menino viu-se bombardeado pelas explicações de como haviam acontecido os gols. O pai queria saber se percebera esta ou aquela jogada, este ou aquele drible.

- É. Vi. A alegria de seu pai o incomodava e o deixou monossilábico.

Chegam em casa e são recebidos pela mãe, que atendeu a campainha (não havia interfone; não precisava – bons tempos!!!).

O pai, orgulhoso e feliz, dirige-se ao menino e pede que diga a sua mãe o que estava sentindo, como fora a sua experiência, se queria continuar a ir aos jogos do time de seu pai, o vencedor incontestável daquele dia.

Um tanto ressabiado e com receio de desagradar ao velho, o menino vira-se para a mãe e diz: EU QUERO SER O OUTRO TIME. EU QUERO SER FLAMENGO!

- Mas como, interrompe o pai, não acreditando no que ouvira! Você não viu que o meu time é muito melhor, que ganhou fácil?

Seguem-se poucos segundos de silêncio e o menino volta a falar: EU QUERO SER FLAMENGO!

O pai, ainda que decepcionado, afaga a cabeça do filho e se afasta.

O menino vai para seu quarto, deita-se e vê passar, a sua frente e repetidamente, o filme do que acontecera naqueles momentos em que esteve no estádio.

Aquela torcida em vermelho e preto havia tingido a sua rotina de forma permanente. Só se lembrava e enxergava aquela torcida.

No dia seguinte, comprado o jornal, o pai mostra ao menino a manchete esportiva e lê a matéria sobre o jogo, com exaltação à atuação do time de camisa sem graça.

- O que você acha disso, filho?

- EU QUERO SE FLAMENGO, diz o jovem, resoluto.

Sai o pai para trabalhar e quando volta, ao anoitecer, traz um presente: O UNIFORME COMPLETO DO FLAMENGO!

O menino lança um grito estridente de plena felicidade! Quer vesti-lo naquele mesmo momento. A mãe o ajuda. O menino dorme trajando a mais confortável e linda roupa que já usou (e ainda usa) até hoje: O MANTO SAGRADO!

Hoje, aquele menino está prestes a completar 60 anos e sua retina continua a mesma, impregnada de vermelho e preto, cores estas que também colorem as retinas do casal de filhos daquele jovem.

O neto daquele pai, que já não mais se encontra entre nós, aos dezesseis anos, joga no juvenil do CLUBE DE REGATAS DO FLAMENGO!

Há fundadas notícias que seu avô é o mais novo velho torcedor do MAIOR DO MUNDO!

UMA VEZ FLAMENGO, SEMPRE FLAMENGO!

José Saba Filho

3 comentários:

Edmilson Lani disse...

Emocionante! É ótimo ser Flamengo! SDS RN

Marcelle disse...

É impressionante o número de pessoas q se tornaram rubro-negras na derrota. Com meu pai aconteceu o mesmo: foi ao Maracanã aos 12, 13 anos e viu o Flamengo perder p/ o Botafogo de Garrincha! Saiu de lá o mais ardoroso dos rubro-negros. Foi picado pelo "vírus" rubro-negro. Nunca mais teve cura!

Anônimo disse...

muito emocionante Dr. Saba. aquir é a Neia, ñ sei se vc lembra