Pesquise no Flamengo Eternamente

Pesquisa personalizada

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Uma paixão que também arde na arte

Luiz Hélio - luiz.helio@flamengorj.com.br


Mengo meu dengo 3

Mesmo diante do bisonho futebol praticado recentemente pelos seus apáticos jogadores, fazendo o time ser abatido de todas as formas e por qualquer um, fora de campo o Flamengo continua tão imbatível quanto já foi um dia também dentro das quatro linhas, sob o comando do escrete de ouro de Zico e cia. Graças a Deus existe a palavra saudade na nossa língua. Ainda mais para quem, como eu, só assistiu o finalzinho do magnífico filme. E essa permanente supremacia tem nome: a apaixonada e inigualável nação rubro-negra que, contrariando todas as lógicas, mantém inabalável o seu orgulho e nunca perde a esperança de um dia voltar a ver o gigante de pé.

Presente com esmagadora maioria em todos os segmentos sociais - principalmente nas camadas mais pobres – o Mengo também é, vejam só, o clube do poder! A constatação do que já era evidente veio no último domingo durante o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo. O esportivo dominical exibiu uma matéria sobre pesquisa que apontou a preferência clubística dos nossos parlamentares. Sem muita surpresa, os números mostraram que o Flamengo também é o campeão nos corações dos representantes do povo. São 78 deputados na Câmara e 17 senadores no Congresso, ajudando a compor uma nação de quase 40 milhões de brasileiros.

E essa paixão tão popular (que circula pelo poder) é ainda uma paixão que também arde na arte.

Capítulo I
Flamengo em verso e prosa


Capa do romance que teria preconizado

as glórias do Flamengo

Na literatura, uma verdadeira seleção de craques eternizou o Mais Querido em várias e embriagantes publicações. Uma notável lista que inclui romancistas, cronistas, jornalistas e outros escribas. Para mostrar quão umbilical é a relação do Fla com as letras, começarei citando um depoimento do imortal da Academia Brasileira de Letras, o inesquecível "Dragão Negro" José Lins do Rego, quando em homenagem ao aniversário de meio século do clube da Gávea, comemorado em 1945: "Faz hoje cinqüenta anos o grande Flamengo. Muita gente me pergunta porque sou Flamengo. A muita gente eu tenho dito que sou Flamengo como sou romancista, pela força de meus bons instintos". E foi movido por esses bons (e criativos) instintos, que o autor de Fogo Morto – um grande clássico da literatura brasileira – desde cedo passou a nutrir incondicional paixão pelo Clube de Regatas do Flamengo, chegando a ser, inclusive, um de seus diretores. Mas não foi exatamente na condição de cartola que "Zelins" entrou para a história do rubro-negro como um dos seus maiores colaboradores. Freqüentador assíduo da confraria "Boca Maldita", formada pelos ilustres "Dragões Negros", o escritor paraibano – cujo estado natal, não por acaso, traz na bandeira as cores vermelha e preta e talvez seja o pedaço de terra com maior proporção de flamenguistas do país – ajudou a engrandecer e popularizar ainda mais as conquistas e os craques do Flamengo em suas mais de mil crônicas publicadas diariamente no Jornal dos Sports. Junto com os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, formou um trio tão espetacular que os mesmos chegaram a ser chamados de Leônidas, Pelé e Garrincha da crônica esportiva nacional. Já Mário Filho, um dos maiores jornalistas deste país e que postumamente emprestou seu nome ao Maracanã (o famoso templo rubro-negro), contrariando o genial e polêmico irmão tricolor, justificou assim o amor pelo time do povo: "Por que o Flamengo tornou-se o clube mais amado do Brasil? Porque o Flamengo se deixa amar à vontade". Mas até mesmo o fanático torcedor do Fluminense rendeu-se ao magnetismo rubro-negro e prestou várias homenagens ao Flamengo com a sua visceral forma de escrever como se o mundo estivesse em pleno apocalipse. Tanto que chegou a profetizar que chegaria o dia em que o Flamengo não precisaria mais de jogadores, pois bastaria a força da sua camisa para amedrontar os adversários. Ou ainda ressaltando que "por onde vai o rubro-negro arrasta multidões fanatizadas. Há quem morra com o seu nome gravado no coração, a ponta de canivete. Pois o Flamengo tornou-se uma força da natureza. Chove, venta, troveja, relampeja".

Por tudo isso é que o tricolor Nelson Rodrigues pode ser considerado um flamenguista de alma. Outros talentosos escritores e jornalistas continuaram escrevendo em tintas rubro-negras toda a magia que envolve o Flamengo. Com destaques para publicações organizadas ou escritas por nomes como: Edilberto Coutinho (Flamengo até morrer); Marcos de Castro (Flamengo é puro amor) e Ruy Castro (O Vermelho e o Negro). O acervo é imenso e não daria para citar todos neste espaço, no entanto, não posso deixar de fora a última publicação que vai fazer a nação correr às livrarias. Foi lançado, na última semana, o livro "Urubu", trazendo histórias e tirinhas do inesquecível cartunista Henrique de Souza Filho, mais conhecido por Henfil. Outro genial flamenguista que oficializou o famoso urubu (alter-ego do próprio artista), como a irreverente mascote do Flamengo.

Impressiona como esse clube está sempre nos envolvendo, seja no acompanhamento de uma partida que tanto pode ser fabulosa quanto estarrecedora, seja nas situações mais inusitadas do cotidiano. Certa vez estava lendo a revista Cult – conceituada publicação cultural do país – e eis que, para minha grata surpresa, deparei-me com um ensaio intitulado "Confissões de um flamenguista envergonhado". O que pareceu ser mais um texto criticando a desesperadora situação em que o time estava naquele momento, aos poucos foi se transformando numa deliciosa leitura. Puro deleite para quem é apaixonado pelo Mengo e pela boa literatura. Mais curioso que encontrar um texto sobre futebol na excelente Cult, foi perceber que o seu autor, apesar de ter um nome genuinamente lusitano, Manuel da Costa Pinto, não torcia pelo nosso rival de São Januário. Mais ainda, mesmo sendo um paulistano da gema, também não torcia por nenhum dos grandes ou pequenos times de São Paulo. Jornalista com vasta experiência em literatura, apesar de ainda jovem, e então editor daquela publicação cultural, o grande Manuel - que quando criança não era besta nem nada – de fato e direito escolheu ser Flamengo até morrer. Segundo ele, nas rodas de mesa quando o assunto caía no futebol, seus amigos estranhavam o fato de um paulistano torcer por um time carioca e, muito pior, pelo Flamengo! Diziam que é como ser brasileiro e torcer pela Argentina. "Uma heresia agravada pela rivalidade entre Rio e São Paulo".

Durante a sua hipnotizante narrativa, foi confessando que começou a acompanhar o Mais Querido na época em que Zico e Júnior levaram o time a conquistar todas as glórias possíveis. Só que de uns tempos para cá, por motivos óbvios, adotara "uma explicação mais poética para fazer a apologia metafísica do flamenguismo". O ponto alto do texto é quando o nobre jornalista compara o Galinho a Julien Sorel, personagem do livro "O Vermelho e o Negro" (título tomado emprestado por Ruy Castro), do escritor francês Stendhal, que para Manuel da Costa, teria sido "um flamenguista avant la lettre". Afirma ainda, com o ufanismo peculiar a todo rubro-negro, que "Zico foi o Julien Sorel do futebol. No rastro deixado pelo jovem herói do livro – que saiu da província para conquistar Paris – o galinho foi o plebeu subnutrido que saiu de Quintino para galgar os pedestais do futebol mundial". Golaço. Gol a la Leônidas, de bicicleta. Melhor, Obina de letra numa final de campeonato em cima do... bem, vocês já sabem. Deliciante!

Para encerrar, brindarei a todos nós com um poema que foi declamado pelo então octogenário argentino Agustin Valido, eterno herói do primeiro tricampeonato, para o especial da TVE exibido no ano do centenário: "Flamengo, se por querer-te tanto, te quero mais que a minha vida, que mais quero? Querer mais?". Símbolo de uma época em que os atletas honravam o Manto Sagrado a tal ponto que chegavam a jogar doentes, Valido tem imortalizado seu nome nas páginas da história do clube que amou durante toda a vida. E a coluna desta semana é especialmente em sua homenagem.

Aos atuais jogadores, dedico um trecho de uma canção do Chico – gênio brasileiro que por algumas dessas infelizes crueldades do destino, nasceu pó-de-arroz: apesar de vocês amanhã há de ser outro dia.

Na próxima semana: Uma paixão que também arde na arte – capítulo II – Flamengo bom de bola e de samba.

SRN e até lá!

Nenhum comentário: