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terça-feira, 4 de novembro de 2008

Bom Tempo - Por Zico

Bom Tempo

Eu tive 22 anos de alegria desde que atravessei o portão do Flamengo, na Gávea, pela primeira vez. Foram duas décadas - e um puquindo mais, vestindo o Manto Sagrado, dando o meu suor e o meu coração pelo maior e melhor clube do mundo. A Nação Rubro-Negra sempre mereceu isto. Com licença.Hoje vou falar do meu tempo, de meus companheiros. E de mim. Depois que a gente se torna um vencedor, tudo fica ou parece fácil. Mas as pessoas não sabem que o caminho muitas vezes é difícil. A tendência natural seria eu ter iniciado minha carreira no América, onde jogavam Edu e Antunes, meus irmãos. Onde eu conhecia todo mundo. Fiz teste e cheguei mesmo a jogar uma partida pelo infantil - única vez em que, no Brasil, oficialmente vesti uma camisa que não a do Flamengo. Aí apareceu o Celso Garcia, radialista e amigo da família. Pediu ao papai para eu fazer um treino no Flamengo. Entre o América dos meus irmãos e a paixão de torcedor aptei pelo Flamengo: o coração falou mais alto.

Só que o Celso me levou à Gávea num dia de treino do juvenil. Ele insistiu com o treinador e eu joguei 10 minutos. Era pequeno, tinha 13 anos. Imaginem treinar no meio dos moleques de 17 anos... Isso reforçou um preconceito que já existia : apesar de ter irmãos altos e fortes, a comparação com Edu, que era o destaque, foi inevitável. A desconfiança de que eu seria pequenino e magro como o Edu era marcante.

Acabei na Escolinha, onde o Célio de Souza acreditou em mim e teve paciência. Ele tinha um auxiliar, o Zé Nogueira, que foi o responsável pela minha permanência na Gávea. Quando o Célio se transferiu para o Vasco levou quatro garotos com ele e quis me levar também. Acabei ficando por causa do Zá Nogueira. Então surgiu outro problema. Meu pai não queria que eu interrompesse os estudos. Treinava de manhã e à tarde. Estudava à noite. Morava em Quintino, não dava para almoçar em casa e voltar à Gávea. O clube não queria pagar meu almoço até que George Helal entrou na história. Passou a me dar um salário e pagar minhas refeições. Por muito tempo pensei que as despesas eram por conta do Flamengo.

Ao subir para o juvenil, nova dificuldade. Por questão de política do clube, Jouber, o técnico, não utilizava os jogadores que vinham da Escolinha do Zé Nogueira. e a coisa ficou assim: quando o Celso Garcia aparecia na Gávea eu treinava. Quando não, eu ficava encostado. Isto, infelizmente, ainda hoje acontece com frequência nas divisãoes de base e, muitas vezes, faz com que alguns garotos procurem outro clube ou abandonem o futebol prematuramente.
Tempos depois Jouber passou a confiar em mim. E se dedicou à minha preparação. terminavam os treinos, ele me pegava e ficava quase uma hora exigindo chutes, passes, lançamentos, finalizações e cabeceios. Curiosamente, mais à frente, Jouber seria o responsável pela minha efetivação no time profissional do Flamengo.

Mas eu estreei no profissional do Flamengo contra o Vasco, em 1971, num jogo pela Taça Guanabara. O técnico era Freitas Solich, um paraguaio. Joguei como centroavante num ataque que tinha Nei Guerreiro, Tales, Fio e Rodrigues Neto. Faltavam dois jogos e, se o Flamengo ganhasse, decidiria o título. Ganhamos de 2 a 1, mas perdemos a Taça para o Fluminense, que venceu o jogo por 3 a 1.

No final de 1971 fui convocado para a Seleção Brasileira que disputou o pré-olimpico. Do Flamengo foram também os zagueiros Fred e Aloísio. O Brasil se classificou para as Olimpíadas de Munique. Voltei ao Flamengo e Zagalo assumiu como técnico. Ao me ver, disse que eu deveria voltar ao juvenil, que fora lançado prematuramente no profissional e aqui, se eu ficasse, que me limitasse apenas aos treinamentos. Acontece que eu já ganhava um bom salário e não quis voltar para o juvenil. Foi quando Antoninho, técnico da seleção que disputaria as Olimpíadas, me aconselhou a jogar nos juvenis pois, do contrário, não poderia me convocar, já que eu não estaria em atividade.

Acreditei nele e me reintegrei ao juvenil. Fomos campeões e fui o artilheiro do campeonato. Sabem o que aconteceu ? Para surpresa e decepção minha, o Antoninho não me convocou para a Olimpíada. Vida que segue. Ainda em 72, Zagalo me botou na reserva de Doval em alguns poucos jogos. Em 73 cheguei a jogar em outras posições como ponta direita, ponta esquerda, centro-avante e, de vez em quando, no meio de campo. Na minha. Sobrava uma vaga - eu nem discutia. Jogava. Finalmente, em 1974, Zagalo foi para a Seleção brasileira e Jouber assumiu o time do Flamengo.

Arrebentei logo no primeiro treino. Foi quando Jouber avisou ao Dario e ao Doval que era o novo titular. Que eles dois disputariam uma posição. Jogamos contra a Ioguslávia e vencemos de 3 a 1. Fiz dois gols. Saimos para uma excursão de cinco jogos e fui o artilheiro com mais de 12 gols. Daí fui embora...

Chegamos a 1978 e, até 1983, ganhamos praticamente o mesmo número de títulos que o Flamengo conquistara em toda a história dele, além de um brasileiro inédito e, pela primeira vez, títulos internacionais oficiais como a Libertadores da América e o Mundial de Clubes em Tóquio. Depois de tudo isso a Nação Rubro-Negra ficou muito mais exigente. Com certeza e com razão...
Repito o que já disse lá em cima: tive 22 anos de alegria desde o dia que atravessei o prtão da Gávea pela primeira vez. À parte as pessoas mais chegadas da minha família, o Flamengo foi o que tive de mais importante na vida, estendendo-se da adolecência ao meu tempo de veterano. Participei do encontro de duas gerações. A primeira de, Cantarele, Rondineli, Junior e Nunes. A segunda, de Adílio, Tita, Andrade, Leandro, Figueiredo - que Deus o tenha em bom lugar - Mozer e Anselmo. Estavamos todos na Libertadores e em Tóquio. Todos, jogadores feitos na Gávea. Em Casa.

Tínhamos, também, excelente estrutura. E um extraordinário surpevisor: Domingo Bosco. E quando você tem uma retaguarda boa tudo fica mais fácil. Era um grupo unido, muito forte. Todos com amor pelo Flamengo, pelo futebol - com vontade de jogar. O Flamengo era uma alegria. A gente chegava na Gávea e não se preocupava com a hora de sair. Ficávamos depois dos treinos, melhorando nossas condições técnicas. Para o nosso bem, para o bem do Flamengo. Para a felicidade geral da Nação Rubro-Negra.

E os resultados não apareceram por acaso.

Eu fui

(Texto retirado do Espaço do Zico, Revista do Flamengo número 22)


http://www.geocities.com/RodeoDrive/4510/colun3.htm

3 comentários:

Mengão Guerreiro disse...

Caramba, chega a emocionar lendo as palavras do galinho. Que geração! É esse amor e dedicação que falta ao atual elenco do Fla, aliás falta isso no futebol atual. Os jogadores tinham q ter o Zico como referência, fico pensando como é bom parar de jogar e mesmo assim continuar sendo amado e idolatrado por uma nação. É de arrepiar. Pena que os jogadores estão mais interessados nos milhões do que na Glória eterna.
SRN

Diego Louzada disse...

Maravilhoso tempo a década de 80 quando os jogadores criavam vínculos de amor com os clubes. o Zico do Flamengo, o Roberto do Vasco e por aí vai. Hoje nada mais disso existe e são poucos os casos de dedicação ao clube a torcida, como vem acontecendo este ano no Vasco com o baixinho Madson.

Anônimo disse...

é por isso que sou flamengo até depoims de morto,tendo o Zico ,Junior, leandro ,adilio, andrade e por ai vai vários craques, saudaçoes pra todos e ainda torço pelo hexa. Carlos alberto p. costa, flac.a.p.c@hotmail.com