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domingo, 29 de novembro de 2009

Gigante mesmo é a nossa fé

Gigante mesmo é a nossa fé
*Por Maurício Neves

Faz vinte e um anos, mas a lembrança é nítida como o contraste do vermelho e preto contra o verde do gramado. Vínhamos fazendo um campeonato brasileiro irregular e, durante os Jogos Olímpicos de Seul, fomos privados de Zé Carlos e Bebeto. Diante disso, e com a contusão de Zico, fomos obrigados a mandar a campo Delacires e Luvanores, com o velho Cantarele no gol, grande Canta, figura histórica, mas que naquele fim de carreira levou até gol do meio da rua, contra o Santa Cruz, no Maracanã.

Ficamos quatro jogos sem vencer. Mas aí chegou Telê Santana, Zico voltou ao time e fez uns golaços, Sérgio Araújo foi contratado e encaixou. Vencemos Santos, Guarani – um contundente 5x1 em pleno Brinco de Ouro – e Criciúma em seqüência, e para fechar o turno empatamos fora com Cruzeiro e Coritiba.

Havia uma animação geral no começo do segundo turno. Mas perdemos para o Inter no Beira-Rio, mesmo com Zicão metendo um dos mais belos gols de sua iluminada carreira. Aí escorregamos diante do Palmeiras, e com outras duas derrotas diante de São Paulo e Vitória, todos disseram: o Flamengo está fora, não chega entre os oito.

A coisa piorou de vez no Fla-Flu. Vencemos por 1x0, mas Zico se machucou de novo. Parecia que só restava terminar o campeonato com dignidade. Parecia, porque depois do Fla-Flu vencemos mais três jogos, um atrás do outro: Atlético Paranaense no Rio, Portuguesa no Canindé e Bangu, sob um sol escaldante, com um gol espírita de Alcindo. Doze pontos ganhos em doze pontos disputados. A duas rodadas do fim, estávamos no páreo.

O penúltimo jogo foi contra o Goiás, no Serra Dourada. O Flamengo pareceu sentir o esforço da arrancada de quatro vitórias, e não saiu do zero a zero. Naquele ano empate levava para os pênaltis, e o vencedor do desempate ficava com dois pontos, sobrando unzinho para o perdedor. Perdemos e saímos de Goiânia quase eliminados.

Na última rodada precisávamos vencer o Atlético Mineiro no Maracanã, e torcer por um tropeço – um empate que fosse – do Sport contra o Vitória, na Ilha do Retiro, ou do São Paulo contra o Goiás, no Morumbi. Era muito pouco provável que os já eliminados Vitória e Goiás aprontassem para cima dos tricolores pernambucano (vermelho, preto e amarelo) e paulista. Só um milagre, disse Celso Garcia na Rádio Globo, só um milagre para o Flamengo se classificar. Mas eu acredito em milagres, disse o mesmo Celso Garcia.

Na época não tinha pay-per-view, e eram raros os jogos ao vivo na telinha. O nosso passou na Globo, e foi ao pé do rádio que acompanhei os outros dois embates que nos interessavam. Segundo tempo já, o zero a zero teimava no Maracanã, no Morumbi e na Ilha do Retiro, até que Zinho apanhou uma bola desviada pela defesa, deu uma caneta num atleticano e chutou cruzado, rasteiro, para fazer 1x0. A massa rubro-negra ainda comemorava quando vieram as notícias ruins: quase ao mesmo tempo, Raí fazia 1x0 para o São Paulo, e o Sport também havia aberto o placar.


Desliguei a televisão e fiquei só no rádio. José Carlos Araújo narrava no Maracanã, e de repente perguntou a Maurício Menezes, o Danadinho, como estava o jogo no Recife. - Nada bom para o Mengão, disse Maurício, aqui só dá Sport. Então o Garotinho passou a bola para São Paulo e perguntou a Luís Carlos Silva: - E no Morumba, dá para o Goiás, Lula?

- Está difícil, disse o Lula, mas opa!, agora tem uma falta pro Goiás, Garotinho! Eu chamo de novo quando for sair a cobrança! Eu fiquei esperando o chamado, a cobrança, o gol do milagre de Celso Garcia. Luís Carlos Silva chamou, e o Garotinho disse: - Vai você, Lula!


E o Lula foi: - Atenção, Jorge Batata correu, atirooooou... LÁ DENTRO!!! Gooooooooooooooll!!! Eu pulei sozinho na sala, as vinhetas do Goiás e do Flamengo se misturaram, liguei de novo a televisão, aumentei o volume do rádio, vi Sérgio Araújo fazer o segundo do Flamengo e ouvi Luís Carlos Silva narrar o abafa inútil do São Paulo.


Vencemos, e o mesmo Goiás que havia complicado a nossa vida, complicou a vida do São Paulo. O Flamengo, que o país dava por morto e enterrado, estava classificado para as finais do campeonato brasileiro. Depois do jogo, na Rádio Globo, o vascaíno Áureo Ameno dizia que a sorte do Flamengo era gigante, quando foi interrompido por Celso Garcia: - Nada disso, Áureo. Gigante mesmo é a nossa fé.

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