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terça-feira, 29 de julho de 2008

SALVO PELO FLAMENGO - Por Affonso Romano

SALVO PELO FLAMENGO


Affonso Romano de Sant'Anna


No navio, antes de partir, o colega de Chaves, troçando, lhe dizia, você precisa ter um time, vou lhe dar uma camisa do Flamengo, olha aí, toma lá.

O outro fez uma pilhéria com a tal camisa, dizendo é, vou usar isto mas para limpar o chão , dever servir para alguma coisa.

E embarcaram.

E lá vai o navio em alto mar, mar altíssimo, ao que parece, porque, de repente, começou uma tempestade. Estavam se aproximando da costa da Colômbia e onda vai, onda vem, no meio da tormenta surge outro tormento- há um desentendimento entre o comandante o seu subordinado o qual, irado, deixou seu posto desguarnecido. Não podia haver lugar pior para essa briga. Pois naquela região, dizia-se, de 60 em 60 anos, havia uma baixa da maré, então as rochas submersas apareciam e os barcos encalhavam.

Pois encalhou, o navio encalhou. Pior, danou-se. Começou a afundar. Exatamente como nos filmes. Começou a ir a pique, a adernar, e foi aquela correria, escaleres baixando, e o comandante mesmo desautorizado pela crise ia autorizando isto e aquilo e mantendo a tradição de ser o último a sair do navio.

Vários escalares já haviam sido lançados ao mar e quando o último, que era o do comandante, estava baixando, houve um problema: a embarcação ficou meio de banda, meio torta, suspensa de lado e as cordas e cabos não funcionavam. Enfim, o navio ia afundar com o escaler, seu comandante e os últimos marinheiros.

Foi então que Chaves, o que nunca havia torcido por qualquer time e achava que ia usar a camisa do Flamengo para limpar chão, teve instintivamente um surto heróico e solitário. Saiu do escaler que estava suspenso e subindo pelas cordas, alcançou de novo o navio, e desesperadamente começou a mexer nos cabos até que o escaler, desembaraçado, caiu direitinho dentro dágua, zarpando logo.

O comandante e seus marinheiros se mandaram, e enquanto o navio soçobrava, o Chaves só, sobrava lá em cima. Olhou para um lado, olhou para outro e rumou na direção de um bote salva vidas que ainda restava e lançando-o ao mar pulou em seguida mergulhando.

Infelizmente os companheiros dos outros barcos já estavam longe. Não dava mais para alcançá-los. Distanciando-se, distanciando-se, ele se perdeu. Ficou no mar à deriva, 28 dias.

Sorte que havia no bote quatro kits de sobrevivência e cada kit devia ser útil por 15 dias. Mesmo assim era uma comida que já no segundo dia se mostrava meio insuportável. Verdade é que tinha uns apetrechos, o anzol, por exemplo, que lhe permitia variar seu menu, a faca, e outros objetos. Enfim, ele tinha que se virar tirando comida do mar também. Mas água salobra não é lá muito agradável.

E, de repente, seu bote vai dar numa praia colombiana. E como se tudo tivesse ocorrendo rapidamente, viu-se cercado de uma dezena de homens armados de metralhadora, com cara de índios. Chegara a um dos grande portos de droga. Aqueles tipos mal encarados ao verem o nosso personagem se aproximando sozinho na balsa, deram-lhe porrada, e aos gritos, de mata! mata! mata! foram ensaiando sua morte.

Estava ele para morrer, quando um dos traficantes pega a mochila do náufrago sacudindo-a ferozmente e derrama o conteúdo sobre a areia. Desembrulha-se no meio de tudo uma camisa do Flamengo. E como se estivessem diante de um objeto sagrado os índios traficantes começaram a pular e a gritar:

ZICO!

PELÉ!

ZICO!

PELÉ!

Tudo virou uma festa, um congraçamento. E a camisa do Flamengo que ia ser usada para limpar chão virou um talismã na vida de Chaves para sempre.

(*) Estado de Minas e Correio Braziliense,13.07.08.

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Em tempo, já publicamos outro caso de um torcedor de outro time salvo pelo Flamengo
http://flamengoeternamente.blogspot.com/2007/02/salvo-pelo-flamengo.html

Um comentário:

Pedro Augusto disse...

Embora seja ficção, o texto é muito legal.